Artífice do Ministério Público moderno, Sabella ocupa a tribuna do Órgão Especial pela última vez
Artífice do Ministério Público moderno, Sabella discursa no Órgão Especial pela última vez
"Fiz preciosos, imorredouros amigos", disse o procurador em sua despedida da instituição
O procurador Walter Sabella, um dos artífices do capítulo da Constituição Federal dedicado às funções essenciais à Justiça que conferiu ao Ministério Público brasileiro relevantes atribuições inexistentes em outras nações, ocupou a tribuna do Órgão Especial do Colégio de Procuradores de Justiça pela última vez. "Reconheço em cada um dos presentes um aliado de vida", declarou, nesta quarta-feira (8/7), Sabella ao colegiado.
"Meu único intento neste momento de despedia do Ministério Público é expressar alguns agradecimentos", frisou o homenageado, que se aposentará depois de quase meio século de serviços prestados à instituição. Como sempre acontece nas ocasiões em que faz uso da palavra, Sabella impressionou a todos com o seu pronunciamento. Ele fez uma espécie de retrospectiva de sua trajetória, destacando a condição de jornalista em diversas emissoras de rádio, o veículo mais ágil ainda hoje. "Foi no dia a dia da imprensa escrita e falada que testemunhei os anos de chumbo", contou, citando acontecimentos históricos que vão da Guerra do Vietnã às atrocidades cometidas pelo ditador Idi Amin em Uganda; da caçada ao revolucionário Che Guevara na Bolívia à morte do ativista americano Martin Luther King.
De acordo com Sabella, essa possibilidade de testemunhar fatos de inegável relevância no país e no mundo desenvolveu dentro dele "o desejo de ser socialmente útil". E essa chance, segundo o seu próprio relato, surgiu no Ministério Público. "Tal oportunidade se ofereceu a cada amanhecer", afirmou. "Ao Ministério Público, sou grato, muito grato. Fiz preciosos, imorredouros amigos. A todos, presto o meu preito de gratidão", disse, registrando também a importância de sua esposa e dos dois filhos em sua jornada. "Minha família marchou comigo de cidade em cidade".
"Talvez as novas gerações não tenham a dimensão daquele momento histórico", argumentou o procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, que presidiu a sessão. "A força e o prestígio de hoje não são fruto do acaso", afirmou o PGJ, referindo-se ao papel de Sabella, durante a Asembleia Geral Constituinte instalada em 1987, na construção do modelo de Ministério Público vigente no país.
Para o Pedro Franco, decano do colegiado, Sabella é um ícone do Ministério Público brasileiro, que tem em seu conjunto "uma dívida com esse membro da instituição". A corregedora-geral do MPSP, Liliana Mortari, foi na mesma linha. Ela difiniu o colega como "um dos construtores da história do Ministério Público brasileiro".
"Em suas crônicas, o senhor demonstra que o rigor do jurista pode conviver harmoniosamente com o sensibilidade do poeta", disse a secretária do Conselho Superior, Luciana Bergamo. "Vossa Excelência é um dos generais de quatro estrelas desta instituição chamada Ministério Público", salientou o presidente da Associação Paulista do Ministério Público (APMP), Paulo Penteado, que entregou a Sabella o diploma de ex-presidente da entidade de classe.
O homenageado também recebeu uma comenda das mãos da promotora Flávia Rigolo, integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO). Depois de presentear Sabella com uma medalha do GAECO, a promotora, falando em nome das "novas gerações", como ela própria enfatizou, desejou sorte ao procurador, emocionando a todos com a citação do poema "Recomeço", de autoria do próprio homenageado. "Enquanto os teares da sorte tecem os fios do amanhã", declamou a promotora na presença de um dos membros da instituição que formataram o Ministério Público ao qual ela serve nos dias de hoje.